O dilema da emoção...
Revendo os "highlights emocionais" de Roland Garros 2011, fico espantado pela obviedade: Roger Federer é o que menos aparece, em tais destaques. Digo "obviedade", porque todo amante (ainda que inconstante) de tênis (seja ou não também fã do suíço) sabe que Federer é e busca ser o próprio "mister nice guy": contido, seleto quanto às emoções que demonstra, bem pouco afeito às explosões emocionais (uma exceção rara é importantíssima, na carreira de RF: aquela breve discussão com o juiz principal, na final do USO 2009, contra Juan Martin Del Potro, reclamação em que Federer se permitiu até mesmo alguns palavrões, no "diálogo" com o árbitro de cadeira) de seus colegas de esporte.
Penso, muitas vezes, que esta opção de Federer pela ocultação - e, muitas vezes, negação - de suas emoções o fez e o faz perder jogos que, com um pouco mais de entrega, de aceitação de sua verdade emocional, seria um objetivo perfeitamente realizável. Parece-em com a lição de Ranato Russo: "toda dor vem do desejo de não sentirmos dor". Federer teve quase todas as suas conquistas com uma margem de conforto tão considerável, em quadra, que nunca teve realmente de lidar com (melhor seria dizermos "de duelar", de confrontar) as emoções da adversidade, nascidas de uma evidente ou aparente da superioridade esportiva/física/mental/emocional do oponente (lembremos o que ele protagonizou, contra Pete Sampras, em sua primeira final de Wimbledon; aliás, também sua primeira vez, na grama central do slam inglês!). Para Roger, estar em situação de dificuldades, em quadra, é tão raro, que quando se vê diante de tal desafio surge-lhe na alma todo um conjunto raro de emoções que não lhe são companheiras cotidianas, gerando uma zona de desconforto emocional e mental, em relação à qual ainda não se decidiu, quanto ao "modo de gerenciamento"... E segue perdendo partidas em que se vê em tal situação (na quase totalidade das - raras - vezes, contra um certo espanhol, nascido em Manacór).
No exato oposto das evasivas emocionais do suíço, temos o touro miúra, o "animal Nadal" (como diz o outro - Paulo Cleto), para quem não existe jogo sem entrega, sem mostrar o quanto é sacrificante cada ponto, o quão tenso são os momentos em que o risco da derrota esteja presente, o quanto vale, para ele, o êxito daquele momento do jogo, da carreira, da vida.
Todo esportista (e todo ser humano!) tem ou terá (no início, no meio ou até no fim de sua carreira - do que são prova os atletas que "desabrocham" tardiamente) de enfrentar o dilema da abordagem e do "destino" que dará às suas emoções: como lidará com elas? Mostrá-las-á a todos? Irá mascará-las ou apenas deixá-las quietas (sim, há uma diferença abismal entra as duas opções), dentro de si, enquanto desempenha sua arte? Pode demorar uma eternidade para que o esportista descubra ou reconheça esta verdade: que não pode negar sua natureza essencial, sua essência emocional profunda, e que tem de lidar com ela com sinceridade, com reconhecimento do que ele é e de como sente as coisas.
Nadal é absolutamente verdadeiro, para consigo mesmo, quanto às suas emoções e as deixa bastante evidente. Nadal me lembra Garry Kasparov, o enxadrista que era todo um calhamaço de emoções, no tabuleiro, mas que dominava a quase todos, com seu amálgama de sentimentos e determinação. Federer, me parece (naturalmente, posso entar enganado) negar o "monstro emocional" dainte do qual se vê, nas suas mais recentes disputas de majors (e é uma sequência que poderíamos considerar iniciada em Wimbledon 2008 ou antes, em Roland Garros 2008, naquela fatídica final em que Nadal o varreu e parte do público o vaiou). Nesta linha, Federer me lembra o enxadrista Anatoly Karpov, o célebre rival do início da carreira de Kasparov e de quem este tomou (e defendeu com êxito, em outras duas oportunidades) tanto o posto de número 1 do ranking mundial quanto a coroa de campeão mundial de xadrez profissional). Karpov era o "peixe frio computadorizado" (como um de seus contemporãneos e parte da imprensa o apelidaram), mas sua frieza não era a mesma, quando enfrentava Kasparov: Karpov tentou (ao meu ver) não apenas esconder, mas negar as emoções que os duelos contra Kasparov lhe causavam: perdeu todos os duelos mais importantes e nunca retormou a coroa de campeão...
Em todos os tempos e em todas as modalidades, vemos rotineiramente esse embate dos opostos: A. Senna e A. Prost; Mohamed Ali e Joe Frazier (também George Foreman) ou Tyson versus Evander Holyfield; Capablanca contra Alekhine ou Bob Fischer versus Boris Spassky.
Entre essas duas lendas atuais, Nadal e Federer, se passa coisa semelhante e, até agora, quem tem levado vantagem é o mais transparente, intenso, apaixonado e "leal consigo mesmo", quando o sangue começa a ferver dentro de si.