terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pouco ou muito? Uma escolha de vida... [ou Nicolay Davydenko x Soderling, Federer e Del Potro].



Chegaram e passaram os dias da copa do mundo de tênis {outrora “Masters Cup” [uma das quais vencida pelo nosso Guga Kuerten, derrotando Pete Sampras na semifinal e Andre Agassis – não dopado, espera-se... –, na final, em sets diretos], hoje “ATP World Tour Finals”}, em que os oito melhores do mundo se enfrentam, em torneio suíço [round robin] de dois grupos de quatro, classificando-se os dois melhores de cada grupo e entrecruzando-se, em semifinal e final. Neste 2009, o grupo A teve Federer, Murray, Del Potro e Verdasco; o outro, Nadal [lesionado], Djokovic, Davydenko e Robin Soderling [este não estava entre os oito, mas ficou com a vaga de Andy Roddick, que desistiu do torneio, por lesão].

Federer perdeu todos os primeiros sets de seus quatro jogos; nos dois primeiros duelos, venceu de virada [contra Murray e Verdasco]; no terceiro, não conseguiu virar contra Del Potro, mas classificou-se, ainda assim, em primeiro no grupo, graças ao saldo de games! Foi tão elegante junto à rede, no cumprimento final da partida, que deixou a impressão de não haver se esforçado muito, para vencer, mas isto é só uma impressão: tivemos tiebreak e 7-5 para Federer que, se perdesse este set desempate, voltaria para a Suíça, de mãos abanando... Na semifinal, perdeu o primeiro set contra Davydeno [2-6], venceu o segundo [6-4] e, ganhando o terceiro set por 4 a 3, teve 0-30 no saque de Davydenko, mas perdeu as duas chances de break, levou a decepção/baque emocional para o game seguinte, sofreu a quebra de saque e perdeu o jogo [4-6], no game seguinte, mesmo salvando um match point...

Se conquistasse este torneio, Federer se igualaria a Sampras e a Borg, ambos com 5 títulos de masters. Mas mesmo para o quase unanimemente apontado como o melhor de todos os tempos as coisas nem sempre são fáceis. Agora me lembro das palavras de Marat Safin sobre Federer, dia destes [20.11.2009], em entrevista publicada no site oficial da ATP:

“Roger Federer é, definitivamente, o melhor jogador de tênis de todos os tempos. Ele é o tenista perfeito. Alguns jogadores são grandes do ponto de vista físico, alguns mentalmente, e outros tecnicamente. Roger é tudo isto. Ele não tem fraquezas. Você pode encontrar fraquezas em Agassis e Sampras, mas Federer não tem nenhuma. Ele é o jogador completo. Quando eu jogava contra ele, sempre tinha o sentimento de que precisava jogar minha partida perfeita e ainda esperar que ele tivesse um dia ruim.”

Voltando. Nadal perdeu todos os seus jogos, em sets diretos [ou seja: não venceu um único set – apesar de ter lutado uns dois ou três sets de desempate], mas suas contusões explicam sua fase, sem qualquer dúvida. Perdeu com elegância, com brio [se é que serve de consolo aos seus milhões de fãs]. Deu dó do natural de Manacor.

Djokovic venceu duas [Nadal e Davydenko] e foi eliminado no número de sets, vendo Davydenko e Soderling se classificarem num excelente jogo vencido pelo russo.
Murray, coitado, venceu duas, mas a derrota de Federer para “Delpo” fê-lo cair fora da disputa, por um único game! E ele não pôde, mais uma vez, satisfazer sua torcida, em sua casa...

Delpo foi impressionante; derrubou Verdasco [2-1] e Federer [2-1] e chegou à semifinal, onde encontrou a máquina de bater chamada Robin Soderling. Fizeram uma semifinal fortíssima, com Soderling vencendo o primeiro set [tiebreak], perdendo o segundo [com quebra de saque, para o argentino] e o terceiro [no emocional e novamente no tiebreak]. Foi à final com mais cansaço e tendo algumas horas a menos de descanso do que Davydenko.

Na final, o russo foi o homem de gelo e o próprio preparo físico em pessoa, mas o diferencial foi – sem dúvidas – o preparo emocional de Davydenko aliado à sua técnica. No meio do set final, Delpo teve dois break points, mas o russo defendeu-se com winners e muita coragem, para dominar o placar, quebrar o serviço do argentino e fechar a disputa [só então vibrando muito].

Aonde quero chegar com este longo relato? Aqui: preste atenção no “pouco” e o muito virá. Foi como Davydenko derrotou Soderling, Federer e Del Potro: aos poucos, em cada bola. No tênis, no esporte, cuide de cada bola, de cada saque, voleio e não seja descuidado com a deixadinha [a deixadinha só é diminutivo para quem está na arquibancada; para o jogador, é “deixadona” e “deixadona difícil”, com a alma do tenista – como mostram seus olhos – acompanhando a bola, esperando seu segundo toque no chão adversário]. Guga contou que, em Roland Garros 1998, quando vencia a Marat Safin por dois sets a zero teve, no terceiro set, uma bola fácil e a errou, levando winner do russo, em seguida. Safin ganhou moral com a bola vencedora, conquistou o terceiro set, o quarto e o quinto... Nunca deixe de prestar atenção nas pequenas coisas, no esporte. E não seja confiante ou arrogante; lembre-se: de Brasil e França [tanto na copa do mundo de futebol em 1998, quanto em 2002]; Schumacher x Fernando Alonso; da queda de Kasparov frente a Kramnik e da deste, contra Anand etc.

Na vida, também: cuidado com as desatenções no trânsito, com as “fechadas” e palavrões decorrentes; cuidado com as palavras que você diz e até com seus pensamentos; vigie sua mente. Estude um pouco mais; trabalhe um pouco mais, reflita um bocado a mais. Se você busca o máximo de conquistas, na seara que escolheu e não é um gênio, trabalhe dia-sim-e-dia-também e pronuncie, com sinceridade constante, a sentença de Rui Barbosa: “Em todos os anos de minha vida, o sol nunca teve o prazer de me apanhar na cama.”

Ou não. Você pode não estar nesse barco em busca de excelência; apenas de uma viagem tranquila, sem muito estresse ou cobrança. Se for assim, aproveite a vida; seja como Marat Safin ou Bjorn Borg, Zidane ou Romário. Você, provavelmente, não estará nos livros de história, mas será feliz...