sábado, 3 de outubro de 2009

Rio 2016! Ótimo para o Brasil! Péssimo para o Brasil!

“O Rio de Janeiro continua lindo” e hoje, sexta-feira, 2/10/2009, o hemisfério sul, a América do Sul, o Brasil receberam, pela primeira vez na história deste diminuto orbe, a honra de sediar uma olimpíada {vai começar tudo de novo: a “festa do esporte”, “a celebração da paz” e todas as outras incontáveis frases feitas, para que o mundo sonhe com um fundo de verdade, sobre o qual se deposita um oceano de interesses comerciais, marketing esportivo, inovações químicas fraudulentas, interesses midiáticos sem escrúpulos, para que todo mundo se sinta parte de uma raça superior, destinada a um futuro de beleza física, potência orgânica, pujança mental e saúde eterna – e, naturalmente, as para-olimpíadas ocorrerão depois que as olimpíadas tiverem fim [o que é um absurdo; os jogos deveriam ocorrer conjuntamente, os olímpicos e os para-olímpicos], porque o ser humano não quer ser lembrado de suas mazelas físicas e/ou espirituais e o desfile de membros cotos e limitações orgânicas não é exatamente inspirador, para uma humanidade acostumada e ocultar suas misérias, antes de transmutá-las em virtudes...}.

Para o Brasil e para o mundo, foi algo maravilhoso e terrível, excelente e lastimável; foi a coisa mais certa a fazer e a mais equivocada.

Antes de tudo o mais, uma observação: por que não Madri, com 80% das instalações necessárias já concluídas? Por conta do terrorismo, que já fez centenas de vítimas, na Espanha – alguém dirá: - Mas não já houve olimpíadas em Barcelona?! Sim, mas isto foi antes do “11 de Setembro”, da Guerras do Iraque e Afeganistão, de Osama bin Laden, Al Qaeda, Talibã, George W. Bush... Madri perdeu as olimpíadas não para o Rio de Janeiro, mas para uma terra onde os crimes não têm conotação política e onde a tradição é de paz, apesar de esta “paz” conviver com uma guerra civil constante. A música bem poderia ser “Cidade maravilhosa, cheia de tanto fuzil”...

Uma outra ironia, nesta derrota de Madri: nos últimos dois anos a Espanha tornou-se costumeira em retornar brasileiros[as] dos portões de embarque dos seus aeroportos, negando-lhes entrada no país, argumentando com a necessidade de evitar o ingresso de traficantes e prostitutas {apesar de, no Brasil, uma grande parte dos estrangeiros vir em busca de drogas, prostituição [- Mas é problema de vocês... eles dirão, não sem razão] e jogatina}; agora, terão de se aboletar em seus vôos, pedir visto [nem tão difícil nem humilhante assim; nossas fronteiras são bem mais generosas] e esperar conseguir uma boa reserva [estima-se que haja uma carência de 20.000 vagas, na rede hoteleira carioca] para ficarem – romanos modernos – aboletados em seus camarotes, enquanto a plebe se digladia no circo contemporâneo.

Voltando.

Para o Brasil foi ótimo e para o mundo. Este enxergou, finalmente, que há vida inteligente e rica, abaixo da linha do Equador [embora já saibamos que a FIFA, após as escolhas da África do Sul e do Brasil, se arrependeu do sistema de rodízio de continentes, para as copas do mundo de futebol – tanto, que extinguiu o modelo...] e que o mundo não é apenas Europa, Ásia e América do Norte. Sob este ângulo positivo, foi maravilhoso para o nosso país; ganhamos outra oportunidade de, depois do Pan-Americano de 2007 e da Copa de 2014, aprimorarmos mais ainda a nossa infra-estrutura, melhorar nossa malha viária, despoluir nossas praias e rios, educar nosso povo, cuidar de nossos hospitais [já pensaram, se o Osama bin Laden decide que o Brasil não é tão neutro assim e manda um caminhão de armas químicas e terroristas, para acabar com a festa?...], robustecer nossas instituições, aprimorar nossas universidades e escolas para o fomento do esporte de alto nível ou, mais simplesmente, para a melhoria da qualidade de vida do nosso povo. Esta é a boa ótica, o ângulo otimista. Mas não é o único.

Sob a lente de um realismo cético e, infelizmente, conhecendo a tradição comportamental da parte dominante dos destinos do povo e da nação, podemos imaginar o que pode se dar na mente e no coração dos brasileiros, sobretudo o dos apaniguados do poder, amigos íntimos dos metais e dos papéis-moeda: - Está tudo bem com o Brasil! Vejam só: nos deram uma olimpíada! A violência no Rio não é tanta assim! Ora, Nova York também é violenta, em Tóquio também há mendigos. E a corrupção é um mal do homem; existe em todos os países! E obras de engenharia são assim mesmo: as bolsas oscilam, os preços mudam e o gasto final acaba ficando um pouco acima das projeções iniciais, mas isto é assim mesmo, ora!...

Esse é o lado riscado da moeda [como diria o Harvey Duas-Caras Dent, do ótimo Batman – Dark Knight]: acreditarmos que os problemas de nosso país não são tão grandes assim, que “nunca antes, na história deste país” o Brasil esteve tão bem! O Presidente da República chorou e disse que este era o dia mais feliz de sua vida; e chorou e chorou. Enquanto ele chora de “orgulho de ser brasileiro”, grande parte do povo chora de fome, de doença, de miséria, de abandono, de tragédias nas estradas, nos sinais de trânsito e nos hospitais. Mas isto, isto não faz o presidente chorar. Aliás: ele nem toca no assunto... Deixa isso p’ra lá. Afinal, “o Rio de Janeiro continua lindo”... E não esqueçamos que, mês passado, Lula vetou os limites da lei orçamentária, para os gastos com publicidade oficial do governo. Limite é coisa que Lula não gosta; provam-no os seus 37 ministérios [aliás, há ministros que nunca tiveram uma reunião particular/pessoal/individual com o Presidente Lula, nestes anos todos de governo...] e os cartões corporativos e os gastos sigilosos da Presidência da República.

Esse é o lado ruim da escolha do Rio. E mais: bilhões de reais gastos pelas três esferas do Poder Executivo, para melhorar partes de uma única cidade; a reverberação da política nacional do “pão e circo” [Big Brother/futebol/carnaval/micaretas versus bolsa-escola/bolsa-família etc.], tão combatida pela gente “de esquerda”, antes de se tornar governo. Como se dizia, no tempo do Império: “Nada mais conservador do que um liberal, no governo; nada mais liberal do que um conservador, na oposição”.

Mas eu, espiritualista que sou, prefiro ver as coisas por um ângulo evolucionista: as olimpíadas do hemisfério sul serão um marco na história mundial [dentre as promessas da campanha Rio 2016, está a de plantar 24.000.000 de árvores, no Rio de Janeiro]; o planeta verá a miscigenação única de raças, as fronteiras abertas para todos [palestinos e israelenses, árabes e judeus], o diálogo religioso e ecumênico de todas as crenças de boa índole [cristãos, mulçumanos, budistas, espíritas, teósofos, cientologistas, ateus...], a alegria de um povo que sofre e que não desiste de sorrir/sonhar/amar e que acha que a vida é assim mesmo, como diz o poeta – Mas e a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão. Ela é a batida de um coração; ela é uma doce ilusão... É a vida. É bonita e é bonita.