
Até o dia de hoje, somente o prodígio espanhol Rafael Nadal, vencedor de seis Grand Slam [sendo 4 Roland Garros (de 2005 a 2008; em 2009 perdeu nas quartas-de-final para Robin Soderling, que perderia a final, para Roger Federer), 1 Winbledom (2008; sobre Roger Federer, em cinco sets, após mais de cinco horas daquela que é considerada a maior partida de todos os tempos, por ninguém menos que J. McEnroe e Bjorn Borg) e 1 Australian Open (2009; também sobre o semi-deus da Basiléia)] aos 23 anos, havia conseguido vencer o portador do fogo sagrado do tênis Roger Federer, supra sumo da ética desportiva, do cavalheirismo em quadra e fora dela, da elegância, da humildade e da força mental. Somente ele; somente Rafael Nadal.
Hoje, as coisas mudaram um pouco, por conta de um quase prodigioso argentino; um quase desconhecido há um ano, mais ou menos; um quase desengonçado jogador de 1.98m. Pois este quase estabanado tenista derrotou, em dias seguidos, aos atuais segundo e primeiro do ranking mundial; a Nadal (novamente n.º 2 da ATP, após a queda precoce de Andy Murray, diante do croata Cilic – que caiu diante de Del Potro...) derrotou em incontestáveis três sets a zero, por triplo 6x2. Uma humilhação. Hoje, a Federer, ganhou de virada, por três sets a dois, em cerca de quatro horas de duelo, por inesperados 3x6, 7x6, 4x6, 7x6 e 6x2!
No segundo set, Federer sacou para vencer, com 4x5 e abriu 30-0, mas relaxou, levou duas direitas, a quebra e psicologicamente, talvez, o jogo.
É certo que a torcida foi deselegante (muitos argentinos barulhentos, como sempre, mas sem vulgaridades audíveis ou coisas do gênero) e acho até que, fora o jogo em Londres ou Paris, Federer passearia; é certo que a arbitragem não foi da melhores; é insofismável que Del Potro usou a detestável “milonga” argentina. Aliás, a milonga e a arbitragem de pulso fraco tiraram Federer do sério, pela primeira vez, após assumir o trono do tênis profissional e ele, ainda que sentado, disse poucas e boas ao árbitro de cadeira e, se meu inglês não me traiu, até ponderou que o “juiz de cadeira” lhe tirara um set...
Mas não foi só isso. Del Potro jogou um pouco mais, porque teve mais nervos; controlou-se melhor, acreditou em quase todos os instantes que poderia ganhar, cumpriu sua promessa pública da véspera (“Vou lutar por cada ponto, amanhã e, ganhando ou perdendo, este já é o melhor momento da minha vida!”), ainda em quadra, após a vitória sobre Nadal, o Touro Miúra (esperamos que ainda o seja). Assim, acaba de entrar para a história como o segundo ser humano a vencer o maior de todos os tempos, em um final de Grand Slam.
“O que está havendo com Federer?”, perguntarão desavisados. Nada. Qualquer um poderia ter vencido este jogo. Federe relaxou, no segundo set? Sim, mas “Delpo” também o fez, no terceiro, sacando em 4x3. Detalhe: o argentino entregou o terceiro set, com dupla falta!
Em Roland Garros, Robin Soderling não acreditou que poderia vencer RF; em Winbledom, Andy Roddick experimentou do mesmo veneno mental. Por aí vai a lista. Agora, além de Nadal, Federer também terá de temer outro jovem abusado, também usuário de “táticas” irritantes [como demorar a sacar, demorar a desafiar as marcações do árbitro, e até fingir problema físico (como fez contra Murray, no primeiro semestre deste 2009, perdendo aquele jogo/final, assim mesmo), covardia de que Nadal nunca se utilizou].
O suíço não tem mais nada para provar a ninguém e continua jogando tênis “apenas” porque ama o esporte. Já é o melhor de todos os tempos, faz tempo... As únicas coisas que ainda não alcançou foram o ouro olímpico de simples [ganhou o de duplas, em Pequim 2008 (enquanto Nadal venceu o de simples)] e a conquista dos quatro Grand Slam em um mesmo ano [teve três oportunidades, na carreira (Rod Laver fê-lo, em dois anos distintos, sendo o único a consegui-lo em duas oportunidades e com 11 títulos, ao longo da carreira)].
Já em Roland Garros 2009, Delpo fez Federer sofrer e perdeu por 3x2 somente após cerca de quatro horas de jogo duríssimo. Agora, Del Potro vence sua primeira final de Slam, derrotando Nadal na semi e Federer, na finalíssima.
Interessantes as previsões do carismático e experiente Fernando Meligeni, em seu blog:
“Não tenham dúvida que ele vai entrar mais cauteloso que ontem, hoje ele tem muito mais a perder. Muito mesmo.
O jogo promete, é verdade que o Federer nunca perdeu dele e até o massacrou uma vez, mas hoje pode acontecer qualquer coisa. se o argentino jogar firme como vem jogando tem sim suas chances.
Se eu tivesse no vestiário conversando com os outros tenistas eu diria. Se ele quer ter chance vai ter que fazer o jogo ficar dramático, chegar nos 4/4 ou 5/5 da vida. Se ele começar mal e der a chance do Federer se impor e gostar do jogo já era. Não ganha.
O jogo tem tudo para ser decidido pelo que cada um dos jogadores "sacar". Os dois vem se baseando muito na bela performance dos seus saques. Depois disso os nervos e as oportunidades vão aparecer, quem melhor encarar isso. Leva.
Desta vez prefiro não arriscar um vencedor.”
Os redatores do site "Esporte Fino" relembraram a milonga argentina de Delpo:
"Minutos antes, Del Potro havia arrasado o brasileiro Júlio Silva em horário nobre, diante da arquibancada lotada. Julinho chiou, xingou o adversário, que ele acusava de “sorrir maldosamente entre os pontos”, e pediu atendimento médico sem na verdade sentir nenhuma dor. Mas não deu certo. Todos se encantaram com o grandalhão de Tandil, que avançou sem problemas.
- Com que naturalidade bate na bola!, dizia um jornalista especializado.
- Lembra Gustavo Kuerten, complementava o outro.
Mas o que todos concordavam, mesmo, é que ali estava um dos grandes, um futuro Top 10".
Lembra-me até o Guga Kuerten, derrotando Sampras na semi e Agassis na final, em plena Masters Cup de Xangai. O feito de Guga, naturalmente, é maior, já que a Masters Cup reúne os oito melhores do mundo, no ano e já que ninguém, antes de Guga, batera Sampras e Agassis, num mesmo torneio. Aliás, Guga também detém a marca de ter sido o último jogador a eliminar RF em quartas-de-final de Grand Slam; isto em 2004 (de lá para cá, são 22 semi-finais seguidas). Ah, se não fosse aquele quadril machucado do manézinho...
Após o jogo, Del Potro chorou sinceramente e por um bom tempo; Federer parecia calmo, falou tranquilamente e, com a elegância de sempre, afirmou que “Não fiz o meu melhor, mas Del Potro foi o melhor, hoje”. Levou mais uma bandeja de “prata Slam”, para casa (tinha cinco, “presenteadas” por Nadal...).
O jogo era mais importante para Del Potro, no íntimo? Acho que sim. Federer está meio como Alexandre Magno: lamentando não haver quase mais nada para conquistar. Detalhe: Delpo ganhou aproximadamente U$ 2.000.000 (isto mesmo: dois milhões de dólares) pela vitória, mas ninguém pensava nisto, durante o jogo; tenho certeza.
Agora me lembrei (e prometo que é a última lembrança...) de uma frase de um treinador de futebol, antes de uma final da Champions League européia: “É claro que este jogo não é uma questão de vida ou morte... É muito mais do que isso!”
No site oficial do ATP Tour, veem-se as declarações dos magníficos jogadores:
Del Potro: "Well, when I won the second set, I think if I continuing playing same way, maybe I have chance to win. But after, when I lost the third set, going to break up, I start to think bad things, you know. It was so difficult to keep trying to keep fighting. But one more time the crowd and the fans helped me a lot to fight until last point. I think I have to say thank you to everyone for that."
On building a Grand Slam legacy: "I don't know, I just want to live this moment. Of course I will be in the history of this tournament. That's amazing for me. I have new opportunities in the other Grand Slams to win, because if I did here, if I beat Nadal, Federer and many good players, maybe I can do one more time. But of course, will be difficult, because I was so close to lose today."
On a nervous start: "The beginning of the match I was so nervous, I can't sleep last night. I don't take a breakfast today. That's part of the final, you know. But Roger start very good. I start little down. Was bad with my serve, and that's important weapon of my game. When I broke his serve for first time, I start to believe in my game."
After his two double-faults in the second set: "That moment I start to think the final, playing with Roger, the best player of the history, nothing to lose. And be two sets to one down, but I think, okay, you never lose until the last point, so keep fighting. The crowd help me, and they saw my fight in every point. So I think that's help me."
Can he become No. 1?: "Well, I think everything is to learn about this match. I have many things to improve to be better. Of course I would like to be in top 4, top 3, or top 1 in the future. But I have to play like today many, many weeks in the year. If I still working and still going in the same way, maybe in the future I can do."
Federer: "I thought it was a tough match from the start. I think even the first set was, you know, pretty close. I think both getting used to the conditions. It was kind of tough starting around the 4:00 time because the shadows moving in and stuff. I got off to a pretty good start, and had things under control as well in the second set. I think that one cost me the match eventually. But I had many chances before that to make the difference. So it was tough luck today, but I thought Juan Martin played great. I thought he hung in there and gave himself chances, and in the end was the better man."
On coming close to a sixth US Open title: "Five was great, four was great, too. Six would have been a dream, too. Can't have them all. I've had an amazing summer and a great run. I'm not too disappointed just because I thought I played another wonderful tournament. Had chances today to win, but couldn't take them. It was unfortunate."
Bom, foi assim hoje, quando se cruzaram as trilhas das lendas do maior de todos e a de mais um aspirante a sê-lo (o tempo o dirá)...
Terça-feira, 15 de setembro de 2009, 02:42:43hs.